[Homilia do Trabalhador] Pensei que era mais uma doutrinação marxista, mas era a Bíblia

Por Wéverton Correia

Passei o dia 1° de maio inteiro em casa, tentando produzir alguma coisa, no meu tempo de ócio criativo (mesmo que forçado, eu confesso, por conta do necessário isolamento social).

Durante o dia pude ver várias manifestações nas redes sociais acerca desta data tão importante, e equivocadamente atribuída por alguns ao “Trabalho”, quando na verdade, é o Dia do Trabalhador.

“Os Operários” (1933) de Tarsila do Amaral.
Foto: Reprodução.

Dentre os posicionamentos com os quais me deparei ao longo do dia, um me fez refletir bastante e foi do vereador, médico e ativista paulistano, Carlos Bezerra Jr. Tratava-se de um post no Twitter, que dizia o seguinte:

“Não vamos produzir resultados diferentes fazendo as mesmas coisas. Enquanto houver exploração vendida como oportunidade. Enquanto auxílio emergencial for tido como ato de benevolência e não obrigação. Enquanto crise é tida como oportunidade para lucrar mais, continuaremos a colher mais miséria, mais exploração e pior: mais desesperança. Hora de valorizar mais quem faz e menos quem manda fazer”, escreveu o parlamentar.

Entretanto, que o que me chamou mais a atenção, foi o texto que o Carlos havia compartilhado antes, nas stories do seu Instagram, também em alusão ao Dia do Trabalhador. Um texto descrito na epístola bíblica atribuída a São Tiago, capítulo 5, versículo 4, observe um trecho:

“A diária dos trabalhadores, que não pagastes aos que ceifaram vossos campos, ergue o grito; o clamor dos ceifadores chegou aos ouvidos do Senhor dos Exércitos.”

Antes do versículo 4, o texto já vem falando sobre a justiça de Deus contra os ricos em relação aos seus trabalhadores, do versículo 17, do capítulo 4, ao verso 6, do capítulo 5.

“Quem sabe fazer o bem e não o faz é culpado. E agora cabe aos ricos: Chorai e gemei por causa das penas que se aproximam de vós. Vossa riqueza está podre, vossas vestes estão comidas pela traça, vossa prata e ouro estão corroídos; sua ferrugem testemunha contra vós, consumirá vossas carnes como fogo. Entesourastes para o fim do mundo. A diária dos trabalhadores, que não pagastes aos que ceifaram vossos campos, ergue o grito; o clamor dos ceifadores chegou aos ouvidos do Senhor dos Exércitos. Vivestes na terra com luxo refinado; cevastes vossos corpos para o dia da matança. Oprimistes e matastes o inocente. Não resistirá Deus contra vós?”, declara o texto.

Olhando a atual conjuntura política nacional e jogando em um dos muitos grupos de WhatsApp ou do Facebook dos brasileiros e brasileiras “patriotas” – que inclusive foram às ruas ontem, autorizar o próprio abate –, este texto pode facilmente ser confundido com um texto de orientação ideológica marxista, pois é frontalmente contra todo tipo de acúmulo de riqueza, exploração da mão de obra alheia, opressão de inocentes, remuneração desonesta, dentre outras coisas.

A verdade é que este texto foi escrito pelo autor cristão por volta do final do I século d.C. e é uma clara afirmação da justiça divina contra a injustiça e contra as riquezas indevidas.

O escrito é tão real e atual que chega a parecer uma profecia atemporal, diante da situação do mundo capitalista, onde apenas no Brasil (o último país a abolir a escravidão nas Américas), nos últimos 25 anos, 55 mil trabalhadores foram resgatados do trabalho escravo contemporâneo, de acordo com as informações obtidas da Subsecretaria de Inspeção do Trabalho (SIT), do Ministério da Economia. Em 2020, esse número foi de 942 trabalhadores resgatados, embora as Nações Unidas afirmem que o Brasil ainda é um exemplo, ao longo dos anos, contra a exploração e o trabalho escravo. Então dá pra ver que em âmbito internacional o negócio é ainda mais feio.

Mas falando ainda do Brasil, o dia do trabalhador foi um dia sem muito a comemorar, pelos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros, pois não sabem mais quando irão se aposentar, graças à reforma da previdência, têm seus trabalhos precarizados, graças à reforma trabalhista e devido ao momento pandêmico e a inércia do Governo, perderam seus empregos, causando uma taxa de 14,2% de desemprego no país, de acordo com dados do IBGE. Por outro lado, vários microempresários (que não são os ricos, embora alguns pensem que sim) tiveram que fechar suas portas em 2020, um número que chega a 600 mil micro e pequenas empresas fechadas. Aliado a esses fatores, cresce o número de pessoas em situação de extrema pobreza na nação, com um total de 27 milhões, cerca de 12,8% da população de brasileiros e brasileiras tentando sobreviver com o valor irrisório de R$ 246,00, de acordo com a Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Enquanto o Governo Estadunidense e vários outros países ao redor do mundo começam a propor iniciativas sociais efetivas para sanar os problemas de seu povo, o Governo Brasileiro, contudo, nenhuma ação tem feito quanto a esta situação e continua a mendigar e postergar o valor do auxílio emergencial, sofrendo pressão do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional, ao passo em que milhares de brasileiros morrem senão de Covid-19, pela fome que assola e assombra novamente o país.

E pra melhorar ainda mais o enredo, mesmo diante de tamanha crise, em 10 de abril deste ano, a Forbes listou 10 novos brasileiros que ingressaram no hall da fama dos Bilionários do Mundo, que somam juntos um amontoado de 21,2 bilhões de dólares. Os brasileiros agora são em número de 65 pessoas nessa lista, contando com um patrimônio de 219,2 bilhões de dólares. O que o Governo faz em relação a isto? Absolutamente nada. Nunca fez! Nenhum dos que passaram pela Presidência da República.

Cachorro Dólar. Imagem: Reprodução.

O futuro do país sempre esteve nas mãos dos mais ricos, detentores do capital, da mídia e do poder estatal, que são os mesmos que exploram e trabalham na alienação dos trabalhadores, junto aos crápulas ditos religiosos, falsos profetas apocalípticos, fariseus de nossos dias, que enganam e lucram inenarravalmente com a honestidade e as contribuições de parcela do nosso povo, que estão entre seus fiéis, o que difere totalmente dos ensinamentos e dos padrões bíblicos.

E aí, diante de todas estas coisas abomináveis, remontamos ao texto neotestamentário, às palavras de São Tiago (possivelmente o irmão humano de Jesus Cristo), líder da Comunidade cristã primeva de Jerusalém – que ora expomos nesta breve homilia dominical – e nos perguntamos: será que os ricos com sua exploração aos trabalhadores, continuarão a imperar e a resistir? De acordo com as impiedosas palavras bíblicas do apóstolo, seu fim não será dos melhores. Olha só, quantas lições! E eu pensando que era mais uma doutrinação marxista, mas era apenas um texto bíblico.

Como não há de se esperar benevolência por parte do Estado nem dos ricos, depois desta mensagem, eu espero que seu fim esteja próximo, seja por intervenção divina ou por força popular (ou ambas, imagine)!

S. Tiago, o Justo. Imagem: Reprodução.

Com as palavras de outro judeu, este do século XIX, encerro nossa homilia, neste domingo de Nosso Senhor, desejando um excelente dia aos trabalhadores que oram e laboram como este que vos escreve: “trabalhadores de todo mundo, uni-vos!”

2 pensamentos

  1. Toda ação gera reação quer seja do homem ou da natureza… as respostas da natureza é a mais pura expressão da lição divina e o tempo tem ensinado que a vida e o mundo estão em perpétua transformação para no fim de tudo se mostrar em sua essência que nada escapa impune aos planos do criador, enquanto não houver empatia plena entre os seres “sociais” o sofrimento perdurará e se for preciso uma reação das massas hoje massacradas, que haja, pois só então lembraremos que o tempo não para e nessa busca veremos como resposta o cumprimento de tudo que é Lei do retorno, Natureza e Deus.

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