[OCUPAÇÃO] Organização, Coletividade e Solidariedade: Movimentos Sociais ocupam cozinha comunitária e cobram responsabilidade do Poder Público

A equipe do Gabinete Paraíba esteve na última quarta-feira (21) visitando o prédio da antiga Cozinha Comunitária do Jeremias, em Campina Grande, local onde ocorre desde a última segunda-feira (19), um movimento de ocupação por parte da Sociedade Civil Organizada, com o apoio e a participação da própria comunidade, que tem produzido e servido mais de 200 refeições diárias, distribuídas de maneira gratuita aos moradores do bairro. 

Cozinha Comunitária do Jeremias, Campina Grande, ocupada pelo movimento

Denominado de Comitê Sindical e Popular Contra a Fome, o movimento reúne diversos movimentos sociais do campo e da cidade, entidades sindicais, entidades de juventude e outros. Formam o Comitê a ANDES-SN, ADUFCG, ADUEPB, SINTEFPB, SINTAB, SINTECT, CSP/CONLUTAS, MST, MAB, UNE, DCE/UFCG, Levante Popular da Juventude, Correnteza, CEBI, MLB, com o apoio dos mandatos dos vereadores Anderson Pila e Jô Oliveira. 

O movimento tem dois grandes objetivos, primeiro é o de minimizar a fome das pessoas dessas comunidades e segundo é o de pressionar o poder público para que ele assuma a sua tarefa de ajudar as pessoas em condições de vulnerabilidade social e, entre outras medidas, reabra as cozinhas comunitárias. 

A nossa equipe esteve no local e conversou com Osvaldo Bernardo, que faz parte do Movimento de Atingidos por Barragens, da Via Campesina, do Conselho Estadual de Segurança Alimentar e que é uma das várias lideranças que fazem parte do movimento, e que nos explicou um pouco sobre a organização, objetivos e nos deu mais detalhes sobre a iniciativa, acompanhe um resumo dessa conversa:

Ideia 

Segundo Osvaldo, o movimento surge de uma iniciativa em âmbito nacional, a campanha Mãos Fraternas, que tem como objetivo atender as pessoas em situação de maior vulnerabilidade social, do campo e da cidade, como forma de se solidarizar com a vivência em que essas pessoas passam, como também realizar ações que busquem minimizar essas dificuldades. 

“Em um momento de Pandemia que o Brasil está vivendo e o mundo, a gente está querendo ser fraterno e solidário com as famílias que estão e já estavam em um grande grau de vulnerabilidade social, com a crise financeira e com a chegada da pandemia, esse índice aumentou muito mais”, comentou Osvaldo.

Iniciativas constantes

De acordo com a liderança, a união desses movimentos tem atuado em outras iniciativas que trabalham com o objetivo de ajudar as pessoas, a exemplo do trabalho feito com viventes de rua, onde o coletivo busca trabalhar não só no combate aos efeitos da fome, mas também no combate ao Coronavirus, entre as ações já realizadas, estão as doações de máscaras, sabonetes líquidos, a produção e doação de quentinhas, 160 só no último final de semana. O movimento também contribuiu com a comunidade artística de dois circos presentes em nossa cidade, que sofrem os efeitos da pandemia.

Cozinhas Comunitárias

“A ideia de ocupação nas cozinhas comunitárias, ela surge de uma discussão nacional de entender que existem cozinhas comunitárias, que possuem como objetivo o de atender as famílias que estão em um grande grau de vulnerabilidade social e estão fechadas.” comentou.

Segundo ele, a escolha pelo local é estratégica e tem dois grandes objetivos, o primeiro é o de minimizar a fome das pessoas dessas comunidades e o segundo é o de pressionar o Poder Público para que ele assuma sua tarefa, o dever social de ajudar essas pessoas e reabra esses espaços.

Panelas utilizadas na produção de alimentos

Articulação, organização e apoio da comunidade

Osvaldo explicou que para que o movimento pudesse definir qual local realizaria a ação, foi necessário um levantamento anterior, uma pesquisa de campo em torno das cozinhas comunitárias existentes no munícipio, nove no total, os resultados foram capazes de identificar que todos esses locais estão fechados a quase nove anos, em lugares onde as pessoas estão passando muita fome.

Diante disso e da falta de condição econômica e humana para atender todas essas áreas, foi necessário escolher apenas um local, os critérios utilizados levaram em consideração o índice de vulnerabilidade social e a possibilidade de articulação conjunta com a própria comunidade, para que as pessoas do próprio local pudessem apoiar, partilhar e se engajarem nesse trabalho coletivo. 

Osvaldo explicou que houve uma organização anterior junto a própria comunidade, para que ela pudesse apoiar, participar e serem também agentes dessa luta. Pois segundo ele, “o movimento não poderia chegar aqui, ocupar isso aqui, sem o povo estar sabendo o que estava acontecendo, não foi uma coisa aleatória, foi uma coisa pensada, planejada”.

“Não é para fazer para a comunidade, é para fazer com a comunidade” 

Produção de alimentos na cozinha feita por pessoas da própria comunidade

A ocupação é formada e apoiada pelos movimentos do campo, movimento urbanos, sindicatos, trabalhadores da educação, a própria população e moradores da comunidade, que já passaram a integrar o corpo de voluntários, segundo ele, mais de 20 pessoas do próprio bairro estão ajudando na organização e na produção das refeições. 

O movimento ainda tem buscado minimizar o uso de pessoas do próprio movimento, pois a maior intenção é fazer com que a própria comunidade assuma o papel protagonista e atue trabalhando na iniciativa, pois assim “a intenção é buscar conscientizar também essas pessoas, para que elas possam entender a importância do trabalho organizado, coletivo e o poder que essa união tem”, comentou a liderança.

Cadastro de moradores para acesso as refeições, feito por membros do Comitê e pessoas da própria comunidade

Refeições 

O movimento fez um trabalho de arrecadação de alimentos, houve também diversas doações pelos movimentos sociais do campo, as próprias entidades que formam o Comitê, existe também um processo de arrecadação via doação de populares, como também uma arrecadação financeira, feita por doações exclusivamente para a manutenção do trabalho e aquisição de alimentos para as refeições. Cabe ressaltar que todo dinheiro arrecadado, como todas as doações recebidas são oriundas da sociedade civil, o Comitê não recebeu e não se utilizou de verbas públicas.

De acordo com os dados do comitê, desde o começo da iniciativa, o movimento tem entregue o mínimo de 200 refeições por dia, que pode se refletir em quase 1000 pessoas beneficiadas.

“Quando as pessoas vêm pegar as refeições, vem uma pessoa só, essa pessoa representa uma família, ela não vem trazer um prato não, ela vem trazer um balde de cinco litros de manteiga, que enche de sopa, que enche de cuscuz, que é pra atender aquela família”, informou a liderança.

Distribuição das refeições, foto Alisson Callado.

Reivindicação e diálogo com o poder público

“A ideia é permanecermos aqui, até enquanto o poder público assumir essa tarefa”.

Segundo Osvaldo, não houve nenhum diálogo, iniciativa ou abertura por parte do poder público com o movimento, segundo ele, falta um olhar solidário dos representantes municipais, “se fosse o poder público pensando numa concepção de atender as necessidades das pessoas, era pra chegar aqui, já procurar as pessoas pra conversar e dizer: “Estou disposto a ajudar”. Isso até ganharia a empatia da própria comunidade”.

O Gabinete Paraíba também entrou em contato com o Assessória Jurídica do movimento, conversamos com Olímpio Rocha, Advogado, Presidente do Conselho Estadual de Direitos Humanos, Ex-Candidato a Prefeito de Campina Grande e um dos membros do corpo de apoio jurídico do movimento, ele informou que ainda na terça-feira, pessoas que se identificaram como agentes da Prefeitura, estiveram no local e fizeram a troca de alguns cadeados do prédio, como também retiraram as faixas do movimento que estavam no local, porém até então, não foi possível confirmar se há de fato relação direta dessas pessoas com o poder público municipal.

Para além disso, o corpo jurídico tem monitorado o sistema judiciário, no sentido de verificar se o munícipio entrará com o pedido de reintegração de posse, para que dentro dos parâmetros legais, a equipe de advogados e advogadas possam fazer a devida oposição. O movimento também tem se organizado dentro das perspectivas legais no sentido de buscar alternativas que possam fazer com que a Prefeitura tenha que reabrir as cozinhas comunitárias.

Solidariedade

Para finalizar a conversa, perguntamos a Osvaldo, qual a mensagem final que o movimento busca passar, não só para o bairro do Jeremias, mas para toda cidade?

“A mensagem que queremos passar para as pessoas, principalmente a classe trabalhadora no geral, é que o que nos mantém vivos, firmes e fortes: é a solidariedade. Não tem outra saída em momentos difíceis em que a sociedade enfrentou ao longo de sua história. Apesar de nós estarmos vivendo um momento difícil, do individualismo, do corporativismo, mas o que mantém as pessoas pobres e a classe trabalhadora, é a solidariedade, não tem outro caminho não. Outra mensagem que a gente passa, é a importância da sociedade civil organizada, mobilizada e lutando, isso garante direito. A mensagem que a gente também quer passar, é mostrar ao poder público que a sociedade civil organizada, ela tem força, quem move a história é a sociedade civil organizada, é o povo organizado.” 

Osvaldo Bernardo, membro do MAB e do Comitê Sindical e Popular Contra a Fome

Opinião do Gabinete Paraíba

O Gabinete Paraíba parabeniza, divulga e apoia a iniciativa. Nós acreditamos que todo movimento organizado pela Sociedade Civil e que tenha como objetivo maior a ajuda de outras pessoas, merece o devido apoio de toda população. Acreditamos também que o poder público municipal precisa ter maior sensibilidade com as centenas de famílias carentes que nesse momento passam as mais diversas dificuldades agravadas pela pandemia, em um momento em que metade da nossa população vive a problemática da insegurança alimentar, dentro de um cenário de incertezas e falta de liderança política nacional, é inaceitável que diante desse quadro de pobreza e carência, a gestão municipal não tenha apresentado nenhum projeto que vise a reabertura urgente das cozinhas comunitárias e restaurantes populares, promessas de campanha, que até agora não foram cumpridas.

Redação Gabinete Paraíba

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