Darko Hunter: o caçador de pessoas desaparecidas em São Paulo que encontrou quase 600 pessoas em 2020

Diretor na Divisão de Desaparecidos da Secretaria Municipal de Direitos Humanos faz rondas de skate, scooter e patinete atrás de pistas

SÃO PAULO – Precisou, chama o Hunter. DARKO HUNTER. É assim mesmo, em inglês e com maiúsculas, que o nome está escrito no seu crachá da Prefeitura. Um servidor público, digamos, incomum. “Hunter” (caçador, em inglês) tem a função de sair vasculhando a cidade atrás de pessoas desaparecidas. No ano passado ele ajudou a achar 579 delas. Mais de uma por dia.

Oficialmente, Darko Hunter é um “investigador social”. O posto: “diretor na Divisão de Desaparecidos da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania”. Nome pomposo, o do cargo. Também está lá no crachá.

No duro, Hunter gasta a maior parte do dia ralando, atrás do computador ou rodando por aí, à procura de 2.024 pessoas. Esse é, hoje, o número de chamados em aberto na capital paulista. Lista longa, ele sabe: “Não dá tempo de comemorar. É resolver um caso e partir para o próximo”.

Darko Vieira Cristiano tem 36 anos, reluta em informar o nome de batismo e mantém a barba e o cabelo com um corte meio hipster, apesar de a calvície começar a despontar. Incluiu o Hunter à identidade antes de entrar na Prefeitura, onde ajudou a implementar a Divisão a partir de 2014.

Fã de motos, chega de scooter à sede da secretaria, na Rua Líbero Badaró, bem no centrão de São Paulo, onde ocupa uma sala no 12.º andar. Em tempos normais, divide o espaço com dois assessores. Um está de férias. A outra, em home office. Sozinho, ele fica boa parte do dia de frente para quatro monitores. Foi ele o responsável por desenvolver um sistema que emite alerta toda vez que alguém da lista de desaparecidos faz cadastro em serviço público – o que dá mais resultado do que a investigação, assim, um por um na rua. “Bingou!”, é como se diz ao chegar um desses avisos.

O lugar de trabalho facilita as diligências. À Cracolândia, ele vai bastante. Outro hábito é acompanhar entregas de almoço para moradores de rua. Afinal, desaparecido também precisa comer. Fazia essas rondas de skate. Agora, trocou por patinete elétrico. Às vezes, dá a sorte de “bingar”. Caçar pessoas exige paciência, faro apurado e um celular extra, 24 horas no ar.

Trabalho

Em uma quinta-feira de janeiro, o aparelho tocou pela primeira vez às 11h09: “Divisão de Desaparecidos, bom-dia”. Do outro lado da linha, uma voz pedindo ajuda para descobrir o paradeiro da mulher de 60 anos que acabara de sumir. “Tá, e por que não foi feito B.O. de desaparecimento?”, Hunter perguntou. A resposta veio curta e ficou sem réplica. “Certo… Qual é o nome dela? Data de nascimento? E o nome da mãe?”

A praxe é ir jogando os dados no sistema ainda no meio da conversa. Se a pesquisa acusa algo (uma entrada no hospital, por exemplo), Hunter entra em contato e pede informações.

Para colher pistas em locais distantes, põe a jaqueta e sai com a scooter, furando o trânsito. Precisa ser rápido. No geral, as primeiras 48 horas são decisivas. Quanto mais o tempo passa, menor a chance de sucesso. Só que desta vez o feeling bateu diferente. Hunter respirou fundo e torceu o nariz: “Isso tá com cara de violência doméstica”.

Parte do trabalho é descobrir o motivo do desaparecimento. A maioria das ocorrências é de homem, pardo e com algum problema de saúde mental. Mas não é raro que a pessoa suma de vista após desavenças ou, no caso de mulheres, por correr risco em casa. Não deu outra. O cruzamento de dados “bingou”: a mulher que “sumiu” havia feito cadastro em um albergue horas antes e disse estar fugindo do agressor, o marido. 

Na caça de desaparecidos, uma investigação bem-sucedida nem sempre quer dizer devolver o procurado à família. No caso específico, a mulher foi encaminhada a um serviço de proteção. 

Imersão

Com cinco furos em uma orelha, dois na outra e mais de 20 tatuagens, Hunter gosta mesmo é de pilotar a moto ouvindo rock’n roll. De Raul Seixas a Radiohead. É assim que faz o trajeto de casa, em Parelheiros, extremo da zona sul, até o centro de São Paulo. Leva uns 50 minutos. Bate cartão na secretaria às 11 horas.

A mesa é uma bagunça. Tem papelada, meia dúzia de canecas, lupa, um microscópio em miniatura e dois maços de Chesterfield, marca mais barata de cigarro. Também deixa uma penca dos seus livros favoritos – entre eles, Diário de Um Jornalista Bêbado, escrito por outro Hunter, o Thompson. Na parede, um mapa da capital e 14 fotos de casos antigos sem solução. Neles, as vítimas têm as feições envelhecidas digitalmente. 

Uma  tatuagem de Hunter, na mão esquerda, é dedicada a desaparecidos. É uma fênix cujas asas, posicionadas para cima, formam um naipe de espadas do baralho. “Significa que a pessoa pode renascer e ainda ter um ás na manga.”

Além de procurar por paradeiros, a Divisão atua em outras duas frentes: localizar familiares de pessoas em situação de rua e de corpos anônimos no IML. O caminho inverso – achar a família, em vez do desaparecido – é mais fácil, segundo o próprio Hunter. Um truque aprendeu nos tempos em que trabalhou em ONG, entre 2007 e 2012. Foi lá que virou “caçador” e tentava convencer moradores de rua a ir para abrigos: “Tem de entrar na cabeça da pessoa”.

O investigador leva esse processo de imersão tão a sério que  chegou a dormir por duas semanas no Aeroporto de Congonhas, como se não tivesse casa. Isso, por sinal, é o que mais fisga sua atenção nos livros de Hunter S. Thompson. “O cara até entrou em uma gangue só para escrever sobre motoqueiro, pô”, comenta.

Na ONG, um dos primeiros casos foi de um sujeito que era chamado por todos de “Treze”. Termo pejorativo. Quer dizer “não bate muito bem”, “meio doidinho”, esse tipo de coisa. Sem contato com parentes, o rapaz morava na rua e acreditava namorar a apresentadora de TV Mariana Godoy. Hunter comprou a história.

Para ganhar confiança, fez a própria namorada escrever uma carta se passando pela jornalista e descolou uma montagem, no Paint mesmo, abraçado com ela. “Passei numa banca e comprei um jornal da China ou da Coreia, nem lembro direito. Aí, disse que Mariana Godoy estava viajando e pediu para ele confiar em mim”, conta o investigador. Funcionou.

Nas missões, já fingiu ser do “esquadrão antimáfia”, mensageiro de Deus e já resgatou até gente que jurava estar fugindo de um meteoro. “Esses casos foram tendo sucesso e eu fui aprimorando as técnicas”, explica. De tanto promover reencontro de famílias, chamou a atenção da Delegacia de Desaparecidos e da DHPP, com quem hoje faz parcerias. Pelos dados do Fórum Brasileiro de Segurança de 2019, só no Estado de São Paulo há hoje 21.175 pessoas desaparecidas. 

Hunter lida com 100 a 150 novos casos por mês. Em épocas de campanha de conscientização (com fotos de desaparecidos passando na TV Metrô), a demanda sobe ainda mais. 

Aos 19 anos, o estudante Samuel Gustavo de Andrade vivia na Vila São José, zona sul, e foi encontrar o irmão em uma festa. Era 9 de dezembro de 2017. Desde então, só foi visto por sete câmeras de vigilância que o flagraram andando, a passos largos e possivelmente em surto, ninguém sabe para onde.

“Nossa vida virou de ponta-cabeça”, diz o mecânico Sandro Andrade, de 54 anos, que largou o emprego e já percorreu mais de 50 mil quilômetros à procura do filho. Rodou por praças e favelas de São Paulo. Também viajou para o interior. Foi a Minas, Paraná e Santa Catarina. Nada. “Basta eu sonhar com uma pista que vou atrás.”

Andrade recebe ajuda de amigos na divulgação de cartazes e posts em redes sociais. Mas teve contato, ainda, com o lado menos solidário da coisa. “Já recebi telefonema pedindo dinheiro em troca de informação sobre o meu filho. Tem gente que se aproveita da situação para tentar extorquir, sabe?”

Durante as buscas,  conheceu muitos moradores de rua. Foram eles que indicaram o trabalho de Hunter: “Vira e mexe, aparece uma notícia e eu peço apoio. Ele checa uma informação aqui, dispara alerta ali. Ajuda bastante”, diz. “Procuro colocar pensamento positivo. Enquanto não encontro meu filho, espero que eles esteja sendo cuidado em algum lugar.”

Já investigou até caso na própria família

Hunter conta que é comum atender familiares de desaparecidos em feriado, fim de semana ou madrugada. Em dias de chuva, as ligações disparam. Procura ser atencioso. “Qualquer um pode passar por esse tipo de situação.”

Certa vez, aconteceu com ele mesmo. Tarde da noite, a mãe ligou dizendo que o marido foi ao pronto-socorro e não dava notícia. Hunter foi com a scooter até o lugar e viu, pela câmera, que o pai já havia saído. “Aí veio o estalo de procurar o hospital de referência. ‘Bingou’, mas poderia não ter ‘bingado’. Foram seis horas de agonia.” 

Com essa rotina, difícil é dar atenção à vida pessoal. O investigador já desistiu da graduação de Psicologia, após cinco semestres, e de Ciências Sociais, onde fez o primeiro. De uns tempos pra cá tem prometido a si mesmo “desligar mais” do serviço e até começou o curso de Filosofia. À noite, é o estudante Darko Vieira Cristiano Hunter. Sim, o “Hunter” também. Está lá na matrícula.

Fonte EstadãoFelipe Resk

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