[ESPECIAL] NEM VIREI JACARÉ | Por Felix Araújo Filho

Mundo velho das mesmas coisas. Remoer em casa o repetitivo mover-se dos ponteiros, que coisa mais entediante. Os meses têm sido um de cá pra lá, aqui mesmo e sem fim. Não gosto disso. Não gosto nada de andar em círculos, em volta de coisa nenhuma.

Hoje, contudo, foi diferente. Ainda bem! Chegou o dia da minha  esperada vacinação. Quem diria!

Não há como narrar a felicidade de acordar pelas seis e quinze da manhã e dar “pause” em Waldick que, indiferente a essas ansiedades terrestres, desde a madruga ainda cantava “Tortura de Amor”. E pus termo ao recital, justo quando o inolvidável Durango Kid da boemia brega melodiava “e a minh’ alma esperava por ti. / Apareceste afinal, / torturando este ser que te adora”.

Juro que repeti a estrofe. Repeti que repeti, bem alto com o coração “de rodillas” aos pés da minha amada chinesa. Era o fim da longa vigília, do fastio que tanto torturara este ser que te adora. Mas, apareceste afinal, CoronaVac! Minh’ alma esperava por ti.

É verdade, doce chinesinha, que em toda essa cruel espera ardi de ciúmes. Ciúme e desejo; desejo e medo. Por isto, colei os olhos do meu isolamento na liberdade dos teus passos. Sofri em silêncio. Quase perdi a razão, quando vi aqueles cientistas fantasmais, metidos em armaduras de plástico, com longas pipetas e luvas enormes a tocar, em salas fechadas, a beleza transparente e protetora do teu corpo líquido.

Vê-la manipulada por estranhos e nada poder fazer para arrebatá-la, quase me fez enlouquecer. Os meus impulsos interiores foram violentos, aterradores. Quis até fazer arminha, deixar-me fotografar sorrindo com metralhadoras estúpidas e ameaçar o mundo inteiro com um também contagioso e repugnante AI-5. Alucinado, pensei em formar milícias, fechar o STF, privatizar a Petrobras, inocentar juiz e procuradores desonestos, tudo isso por puro ciúme de ti. Quase chamei um ministro diarista para ordenar a deportação desses cientistas esquerdopatas para os confins da terraplana, lá deixá-los num lugar infestado de piolhos e passarinhos transmissores.

De fato, minha princesa da Grande Muralha, à espera, consumido pelo ciúme, cogitei sobre todas essas diabruras. Tomado pelo desejo de ter o teu corpo no meu, vi-me tantas vezes sem oxigênio, sufocado na logística idiota de um leito de leite condensado. Que horror!

Então, no confinamento, veio o pior. Veio o medo. Noticiou-se que tu, CoronaVac, eras uma dessas bruxas disfarçadas de progresso, uma víbora diabólica oculta em meio à esperança do povo. Segundo a voz charlatã por muitos acreditada, o preço para quem tomasse a feiticeira nos braços seria uma monstruosa mutação reptiliana. “Se tomar, vira jacaré”. Deus nos acuda!  

Não acreditei na praga crocodiliana. Queria a vacina. Mas, sempre, sempre um duvidar transpira afoito. Inquieta e às vezes turva a mirada dos mais duros céticos. Será? Fui mesmo assim.

O caminho para o local de vacinação estava calmo. As goiabeiras pareciam goiabeiras. Nas calçadas, caminhavam distanciados e em silêncio matinal Emílio Ribas, Vital Brazil, Osvaldo Cruz, Carlos Chagas com as suas máscaras e bisnagas de álcool em gel 70. Sem relutância, acionei o GPS na direção da ciência e do SUS e prossegui. Num piscar de olhos, ela estava comigo, indelevelmente presa ao meu braço.   

Voltamos, então. Agora, cheios de alegria, de cidadania e de esperança. Ali, não mais ouvíamos uivos genocidas nem mentiras relinchantes. Recobria-nos um estado de serenidade e coragem, coisas sempre necessárias ao cidadão, em especial no momento dos grandes enfrentamentos. Foi aí que me dei conta de que não virei jacaré.


Felix Araújo Filho – é advogado criminalista, orador, poeta, intelectual, conferencista e professor de Direito Penal. Foi político brasileiro, Prefeito da cidade de Campina Grande, de 1º de janeiro de 1993 até 1º de janeiro de 1997. Também foi Vereador deste município, por duas legislaturas, durante os anos de 1983 a 1992, tendo sido presidente da Câmara por duas vezes.

Texto enviado através do convite da Colaboradora do Gabinete Paraíba, Gabriela do Ó.

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