Deputada Tábata diz que Congresso seria mais eficiente se tivesse mais Mulheres

“Não podemos esperar mais um século por igualdade de gênero no Brasil”, disse a Deputada à Revista Piauí

Deputada Federal Tábata Amaral.
Foto: Reprodução.

A paulistana Tabata Amaral é deputada federal por São Paulo. Tem 27 anos e está em seu primeiro mandato, para o qual foi eleita em 2018 com 264 mil votos. Nasceu em um lar bastante pobre, estudou em escolas públicas e, depois de vencer sucessivas olimpíadas de matemática, conseguiu uma bolsa de estudos num colégio particular. Diz que sua vida foi salva pela educação, principal bandeira de seu trabalho na Câmara.

Neste depoimento, a parlamentar defende a presença cada vez maior de mulheres no Legislativo. Hoje, elas são apenas 15% da Câmara, mas respondem por 25% dos projetos na área de saúde, de acordo com um levantamento do Instituto Vamos Juntas, fundado pela deputada. Amaral também fala das dificuldades que vem encontrando dentro de seu próprio partido, o PDT, com o qual tenta romper na Justiça Eleitoral, depois de ter divergido no voto sobre a reforma da Previdência, em 2019. “O PDT nunca me expulsou. Me atacaram, colocaram minha vida em risco, dificultaram o quanto puderam o meu trabalho. O Carlos Lupi [presidente do partido] disse à imprensa que preferia me deixar sangrando do que me expulsar.” De acordo com a deputada, outros integrantes da sigla que votaram como ela não tiveram o mesmo tratamento pelo fato de serem homens.

(Em depoimento a Roberto Kaz)

Noventa e cinco anos. Esse é o tempo que o Brasil levaria para atingir a igualdade entre homens e mulheres, segundo uma pesquisa de 2016 do Fórum Econômico Mundial. O equilíbrio seria atingido se a implementação de políticas de gênero continuasse no ritmo daquela época. Fico imaginando quantos anos já retrocedemos de 2018 para cá, com a eleição do presidente Jair Bolsonaro.

O Brasil ocupa o 142º lugar no ranking internacional da Inter-Parliamentary Union sobre a presença feminina nos parlamentos. Ficamos atrás não só do México e da Argentina como da Somália, onde a mutilação genital de meninas ainda é praticada, e do Afeganistão, que até pouco tempo atrás era considerado um dos países mais perigosos do mundo para as mulheres.

Não é fácil ser mulher no Brasil. Não é fácil ser mulher no parlamento do Brasil. Exemplo bobo, mas elucidativo: escrevo este texto no dia 18 de março de 2021, uma quinta-feira; hoje, às 9 horas da manhã, quando cheguei à Câmara, um segurança me perguntou quem eu era e para onde estava indo. Ele não tem nenhuma obrigação de saber quem eu sou, não se trata disso. Trata-se de entender que esse tipo de mal-entendido não ocorre com meus companheiros do sexo masculino. Já passei por duas cenas semelhantes, uma ao lado de um jornalista, outra ao lado de um assessor, em que foram eles as pessoas chamadas de deputado.

O último pleito para o Congresso elegeu 77 deputadas federais – um aumento de 50% em relação às 51 parlamentares da legislatura anterior. Mesmo assim, são 436 os deputados homens. Somos apenas 15% da Câmara. Nós, mulheres, não queremos e não podemos esperar quase um século para que nossos direitos sejam plenamente garantidos. E os homens também não. O equilíbrio é do interesse de todos. Posso mostrar isso com dados.

O Instituto Vamos Juntas, movimento suprapartidário de que faço parte, analisou a atuação parlamentar entre 2015 e 2020. Nesse período, proporcionalmente ao tamanho das bancadas, as deputadas apresentaram 40% mais projetos de lei ordinária ou complementar e de emenda constitucional do que seus colegas homens. Enquanto 36% das mulheres apresentaram mais de catorze projetos por ano, 24% dos homens apresentaram a mesma quantidade. Já entre os parlamentares que tiveram pior desempenho, 27% dos deputados homens apresentaram menos de três projetos por ano, enquanto apenas 13% das colegas mulheres apresentaram a mesma quantidade.

Embora sejam minoria nos cargos de liderança e tenham presidido, em 2020, somente quatro das 27 comissões parlamentares, as mulheres chegam a obter o dobro de sucesso na aprovação dos seus projetos de lei. No período entre 2015 e 2020, projetos apresentados por mulheres tiveram 2,9% de taxa de aprovação, contra 1,4% dos projetos apresentados por homens. Os dados são do Instituto Vamos Juntas.

Não cresci sonhando em ser política. Minha mãe trabalhou por muitos anos como diarista e meu pai, como cobrador de ônibus. Na Vila Missionária, bairro do extremo Sul de São Paulo onde morávamos, a relação que tínhamos com a política se dava por meio dos cabos eleitorais – aquela figura que só aparece em ano de eleição, às vezes até oferecendo trocar dinheiro por voto, coisa que meu pai jamais aceitou. De noite, na televisão, homens brancos e bem mais velhos protagonizavam o noticiário político. Juntando os pontos, passei a achar que aquele universo não era para mim.

Minha vida mudou a partir dos 11 anos, quando comecei a participar da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas. O bom desempenho acabou me rendendo uma bolsa de estudos no colégio Etapa, dois anos depois. Dali passei para a faculdade de física na Universidade de São Paulo e, em 2012, ingressei na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, onde consegui uma bolsa integral da própria instituição.

Cheguei a Harvard para estudar astrofísica, mas já sabendo que aquele não seria o meu caminho. Eu havia acabado de perder meu pai, que era dependente químico, de uma forma trágica. Àquela altura, eu também já havia perdido amigos e conhecidos, que não tiveram a mesma sorte que eu, para o crime e para a violência. Na mesma época, meu irmão concluiu o ensino médio em uma escola pública e não passou em nenhum vestibular. O contraste entre o meu destino e o deles me fazia sentir culpa e raiva. Por isso, em paralelo à astrofísica, passei a estudar ciência política.

Se hoje sou deputada federal é graças ao papel que a educação teve na minha vida. Quando faltou dinheiro para as coisas mais básicas, meus professores se mobilizaram para cobrir os meus custos com transporte e alimentação. Foram eles também os primeiros a saber da dependência química do meu pai.

Trabalho com projetos de educação desde os 15 anos. Já tive a oportunidade de dar aulas em escolas pública e privada, fazer pesquisa na área e atuar junto a organizações da sociedade civil e secretarias de educação. Mas, em determinado momento, entendi que havia um limite para o que eu poderia fazer do lado de fora. Cerca de 75% dos municípios, por exemplo, escolhem os diretores de escolas não por mérito ou de maneira democrática, mas por indicação política. Vi que as mudanças que eu buscava tinham que ocorrer também na política. Me filiei ao PDT em 2018, às vésperas das eleições. Apesar do pouco tempo, consegui mobilizar mais de 5 mil voluntários e fui eleita com mais de 250 mil votos.

Estive em cinco competições internacionais de ciências, nas quais eu era a única mulher da equipe brasileira, mas nada do que vivenciei em termos de preconceito se compara com o que vivo na política. Ainda que eu seja formada em ciência política e astrofísica, minha profissão era a de blogueira na lista oficial do PDT. Em uma reunião com vários deputados homens, um deles chegou a me perguntar quem eu queria provocar com o meu batom vermelho. São microviolências de deslegitimação, que escalam rapidamente para algo mais grave. Já tive que cancelar um evento por receber um aviso da polícia de que eu não estaria em segurança. Já tive que andar com escolta em São Paulo.

Hoje, vivo uma situação bastante delicada e simbólica no meu partido, que me transformou em persona non grata depois da votação da reforma da Previdência, em julho do ano passado. O meu posicionamento, assim como todo o meu trabalho para alterar a proposta do governo, foi debatido com Ciro Gomes, um dos líderes do PDT, ao longo de seis meses. Tentei puxar conversas sobre o assunto dentro do partido – que nunca chegou a fechar questão sobre a proposta em votação – e apresentei várias emendas ao projeto original. Muitas foram aprovadas internamente. Mas, no dia da votação, fui informada pelo Ciro de que o partido teria de votar contra a reforma e ouvi do Carlos Lupi que quem votasse de modo diferente seria expulso. Ainda tentei convencer o Ciro pelo telefone. “Eu entendo, você tem razão, mas a política é assim”, ele falou. Uma hora depois, estava me agredindo no noticiário.

Dos 25 deputados do PDT, oito votaram a favor da reforma, mas as pessoas nem sequer se lembram disso. Por que só eu sou xingada reiteradamente? Por que só o meu voto incomoda? A discordância é tolerada quando vem de um homem, mas se torna desobediência quando vem de uma mulher. Na cabeça deles, eu era uma menina. Na cabeça deles, se eu não estava lhes obedecendo, eu com toda a certeza deveria estar ouvindo algum outro homem. Porque, afinal, são os homens que mandam na política, certo? Não mais. O Ciro disse que se sentiu ferido como um pai. Pai?! Eu tive um pai que, apesar de não ser meu pai biológico, foi quem a vida toda colocou comida na minha mesa e me incentivou a seguir. Não foi o Ciro.

O PDT nunca me expulsou. Me atacaram, colocaram minha vida em risco, dificultaram o quanto puderam o meu trabalho. O Lupi disse à imprensa que preferia me deixar sangrando do que me expulsar. Alguns dos deputados pedetistas que votaram a favor da reforma da Previdência voltaram a ter relatorias, a ocupar lideranças. Outros foram liberados para se filiar a outros partidos. Eu não. Me restou lutar pela minha desfiliação no Tribunal Superior Eleitoral.

Não preciso dizer para ninguém que o fato de ser uma mulher jovem me torna um dos alvos preferenciais do ódio e das puxadas de tapete; as evidências falam por si só. É o jeito de a sociedade nos dizer, constantemente, que esse não é o nosso lugar. Exponho a minha experiência pessoal na esperança de promover um debate sobre o machismo estrutural que permeia várias relações, inclusive na política. É fundamental que toda a sociedade participe dessa discussão e entenda que uma política mais representativa da nossa diversidade produz resultados que beneficiam a todos. Um exemplo bem instrutivo: mesmo ocupando apenas 15% das cadeiras, as deputadas são responsáveis por 22% dos projetos relacionados à educação e 25% dos projetos da área da saúde.

Educação e saúde. Imagina se ocupássemos metade do parlamento?

Fonte: Revista Piauí

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s