(Pai) Afasta de nós este Cale-se que nos resta… Por Wéverton Correia

Charge do Latuff (2019).
Foto: Reprodução/Brasil 247/Latuff.

Tenho refletido bastante sobre os últimos dias em terras brasilis e ao mesmo tempo, tenho me deparado com determinadas coisas que me deixam, de certo modo, aturdido.

Nesta última semana, senti-me, definitivamente, adoecido. Ao mesmo tempo, emudecido, por algumas circunstâncias. Observei-me preso e não foi por causa do novo coronavírus nem mesmo pela força de um lockdown.

É que de tanto calar, mudos, temos adoecido, em meio a esta conjuntura tão tempestuosa que vivemos no mundo e de modo mais agravado, em nosso país.

Estamos por todos os lados presos, estáticos. A focinheira da censura, do medo e da ignorância alheia tem nos calado e isto é estarrecedor.

Ao receber uma mensagem, de uma professora amiga, mostrando a censura aos professores da Universidade Federal de Pelotas, imposta pela CGU, por suposta “manifestação desrespeitosa e de desapreço direcionada ao [inominável]”, confesso que fiquei doente. Um pouco antes havia passado, junto a outros colegas, por uma advertência que muito nos deixou tristes, pensativos e preocupados.

Desde o início de 2019 e mais fortemente no ano de 2020, temos visto uma demonização da imprensa e uma maneira autoritária de silenciar os profissionais do jornalismo. Ano passado, vimos a jornalista Rachel Sheherazade ser perseguida por suas declarações, no SBT Brasil, direcionadas ao Governo Federal. O resultado foi a sua demissão. Em janeiro do corrente ano, a também jornalista Adriana Araújo, que era uma das âncoras de um dos programas da TV Record, por fazer críticas ao governo, em suas redes sociais, pela falta de transparência com a pandemia, também foi demitida pela emissora.

Mas o problema não é restrito aos profissionais da educação e da imprensa e meios de comunicação. Dentro de nossas casas, trabalho ou no meio de nosso círculo de amizades, temos sido calados, pelo medo de magoar àqueles que ainda nutrem esperança e um certa paixão desmedida (que beira à uma devoção religiosa) pelo mandatário da nação.

Não bastando todas essas coisas, temos a pandemia e um vírus letal por aí, que nos obriga a andar mascarados e que tem nos tirado o direito e a coragem de ir às ruas, protestar, como têm feito os cidadãos paraguaios, pelo caos na saúde pública, que coincidentemente, também passa o país vizinho.

Hoje (07), primeiro domingo de março, seria dia de Comunhão e alegria, em diversas igrejas cristãs. Nas igrejas cristãs de confissão protestante e reformada (de uma das quais eu pertenço), seria o dia de partilhar da Ceia do Senhor, tomando junto aos demais fiéis, do pão e do cálice, que são o memorial do corpo e do sangue de Cristo, sacrificado na cruz e de sua ressurreição. Contudo, com a triste realidade da pandemia e as restrições impostas pelas autoridades em saúde pública, temos de ficar isolados em casa.

O “Cale-se” é, portanto, a única comunhão da qual temos partilhado e que nos é reservada neste momento, na companhia de senhores nem um pouco bondosos, que diferentes do Cristo, não se entregam pelo mundo, mas ao contrário, sorriem e desdenham de suas dores e dos que morrem por essa doença terrível. E diferente dos meios de graça que nos propicia a Santa Comunhão, eles nos propiciam a doença de sua maldade que nos corrói.

Como cantou Chico Buarque nos tempos sombrios – mas nem tão diferentes dos atuais – da ditadura, eu repito: “Pai (Pai), afasta de mim esse cálice (Pai), afasta de mim esse cálice (Pai), afasta de mim esse cálice, de vinho tinto de sangue. Como é difícil acordar calado, se na calada da noite eu me dano. Quero lançar um grito desumano, que é uma maneira de ser escutado…”

Afasta de nós esse Cale-se ou nos dê coragem para fazê-lo!

Por Wéverton Correia

2 pensamentos

  1. Diante de tudo isso cabe uma grande “Gota Serena!”… que de tão serena não se revela por causa das mordaças do “Cálice”!!! A necessidade da liberdade ao grito que está na garganta infelizmente ainda esbarra na pandêmica situação presente, mas certamente haverá de soar antes que o ar nos falte e a fé esmoreça…

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    1. Obrigado, Lindoaldo, pelo seu comentário. Estamos passando por uma conjuntura extremamente complicada e a nossa unidade em torno de nossa liberdade de fala e de pensamento deve ser um combustível para nossas lutas contra o autoritarismo.

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